Muitas vezes sinto-me como uma imigrante. É verdade que, apesar de não ser daqui do Alentejo (sou algarvia), continuo a viver em Portugal. Mas, mesmo dentro de um país, as diferenças de vivência, de oportunidades, de cultura e de mentalidade podem ser muito grandes.
Quando saí do Algarve para Lisboa para estudar, aos 19 anos, já notei diferenças. Achei Lisboa hostil, fria e muito acelerada. Mas eu, no auge da minha juventude, rapidamente me habituei e, na verdade, de alguma forma passei a gostar.
Mais tarde, quando me mudei de Lisboa para o Alentejo, já com 32 anos e família formada, a diferença que senti foi agradável: pessoas mais comunicativas e naturalmente simpáticas, um ambiente menos hostil e tudo a acontecer sem pressa, típico de uma zona com baixa densidade populacional. Houve um período de encantamento pela simplicidade, pela beleza dos campos e pelo silêncio. Esse namoro durou alguns anos, até chegar a primeira "desilusão".
Aquilo que faz com que muitas pessoas "fujam" do interior do país — a falta de oportunidades de emprego — bateu-me à porta. Depois de alguns anos como mãe a tempo inteiro e de dar apenas algumas aulas de Yoga por semana, chegou a hora de voltar ao mercado de trabalho. Mãe, mulher, alguns anos fora do mercado de trabalho, licenciada numa área com poucas saídas profissionais: um cocktail perfeito para tornar ainda mais difícil a tarefa de encontrar emprego no interior do país.
As oportunidades são poucas e pouco variadas. Depois de mais de um ano, a oportunidade surgiu. Um emprego simples, exigente fisicamente, mas com a vantagem de ser muito próximo de casa, o que reduz os gastos e o tempo de deslocação.
A vida simples que aqui se vive também se reflete noutros aspetos, como as oportunidades de emprego e a diversidade de profissões. A simplicidade reflete-se igualmente em salários mais baixos. Apesar de me deparar com esta realidade — que, no fundo, eu sabia que existia, mas que durante o "namoro" escolhi ignorar — continuo profundamente apaixonada por esta terra, pela sua simplicidade e pela qualidade de vida que proporciona à minha família.
Porque abraçar a simplicidade implica abraçá-la em todas as áreas da vida e aceitar que, sempre que escolhemos uma coisa para a nossa vida, estamos inevitavelmente a abdicar de outra.